Alvaro Camargo, M.Sc., PMP

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Radar de tendências no agronegócio

Soja

Em 26 de junho de 2017, por Álvaro Camargo, professor, consultor, autor e palestrante.

Como Professor da Fundação Getúlio Vargas, consultor e pesquisador na área de projetos, negócios e estratégia, sempre tenho um olho no agronegócio. Como se sabe, o Brasil, apesar de todos os seus problemas, é um dos líderes mundiais na produção agropecuária. Por conta disso resolvi colocar neste artigo algumas tendências importantes nessa área.  O conhecimento dessas tendências pode ajudar empresas e profissionais a manterem uma atuação relevante no mercado.

Bem-estar animal e uso de práticas não cruéis

Cada vez mais as pessoas passam a entender os animais como seres sencientes. Senciência é a capacidade dos seres de sentir algo de forma conscientemente, ou seja, ter sensações e sentimentos. Um ser senciente tem a capacidade de perceber conscientemente o que ocorre no contexto no qual está inserido e tem sentimentos. Cães, gatos, vacas, bois e cavalos são exemplos de seres que sencientes. Cada vez mais as pessoas se tornam cientes desse fato. E por isso, as práticas cruéis de criação ou de abate de animas vêm sendo rejeitadas. Uma simples visualização de vídeos ou fotos em redes sociais mostrando tratamento cruel de animais pode ser suficiente para criar estragos na reputação de uma empresa. E uma reputação ruim, como todos sabemos, gera perda de negócios. A empresa Whole Foods Market, recentemente adquirida pela Amazon por quase US$ 14 bilhões, desenvolveu um Sistema de pontuação para aferir se as fazendas, os matadouros e as indústrias alimentícias usam práticas cruéis. Se a pontuação indicar o uso de práticas cruéis o fornecedor dessa rede de varejo terá menos acesso ao mercado. Ponto para aqueles que defendem uma forma responsável de lidar com os animais, mesmo que venham a servir de alimento para os humanos.

O impacto do aumento de produtividade por conta das tecnologias de ponta

Como todos sabemos, a busca pelo aumento da produtividade é incessante. Mas nesse momento a humanidade está experimentando um aumento excepcional de produtividade no agronegócio. Isso é possível devido ao emprego de novas tecnologias, como por exemplo, tratores autônomos, melhoria genética, agricultura de precisão e outras práticas de ponta. O resultado é que o aumento de produtividade, embora muito benéfica para os consumidores, cria uma situação de superabundância com reflexos óbvios no resultado econômico dos produtores. O aumento da oferta diminui os preços. Isso é bom para manter a inflação estabilizada e para quem precisa comprar alimentos. Mas os produtores terão que desenvolver projetos que façam com que o custo de produção caia na mesma proporção da queda dos preços. O descompasso entre os custos de produção e preços terá consequências nefastas para os produtores que não conseguirem se ajustar.

Desconfiança com certas tecnologias

Algumas tecnologias empregadas no agronegócio são vistas com grande desconfiança por boa parte das pessoas. O caso mais emblemático é a dos alimentos modificados geneticamente, também conhecidos por transgênicos. Embora algumas pessoas não se importem com alimentos transgênicos, é inegável que existe uma grande resistência ao consumo desses alimentos. O espectro de desconfiança é grande e vai desde a preocupação com problemas de saúde, como por exemplo, reações alérgicas, até preocupações com danos ao meio ambiente. O web site do World Economic Forum traz um artigo que reporta a relutância de países africanos em consumir safras modificadas geneticamente.

O uso de agrotóxicos é outro exemplo comum de tecnologia que levanta muita suspeita por conta do perigo de poluição e por, supostamente, causar doenças cancerígenas por aqueles que consomem produtos tratados com agrotóxicos.  Não é à toa que a oferta de alimentos orgânicos aumenta cada vez mais nos supermercados. Mas, mesmo os alimentos orgânicos também têm seu lado negativo. De um modo geral, a produtividade de orgânicos é menor. Isso exige mais área plantada, o que tende a aumentar o consumo de água, assim como aumenta o uso de terras para agricultura.

Nanomateriais usados na área de agronegócios constitui outra fonte de preocupação. A nanotecnologia promete coisas muito interessantes. Mas a produção e a manipulação de nanomateriais deve ser segura. Uma publicação interessante sobre isso é o “Nanossegurança: Guia de Boas Práticas em Nanotecnologia para Fabricação e Laboratórios “, cujo conteúdo foi coordenado pelos pesquisadores Leandro Antunes Berti, Luismar Marques Porto e outros autores. Felizmente o Brasil já tem acadêmicos pesquisando sobre o assunto.

Rastreabilidade da produção

Haverá uma exigência cada vez maior de rastreabilidade sobre a origem do produto. A reportagem do site fastcompany.com, trata dessa questão nos Estados Unidos. A revista Food Safety Magazine relata que em 2015 ocorreram 626 recalls de produtos nos EUA.  A situação no Brasil não é muito diferente. O Carrefour, varejista de origem francesa e que atua em muitos países, incorporou em suas práticas na operação brasileira o rastreamento de frutas, legumes e vegetais já há alguns anos. É a chamada garantia de origem. A preocupação com a rastreabilidade dos produtos está relacionada com a questão de segurança do consumidor e é um mecanismo de proteção jurídica e de manutenção da reputação do varejista. Por isso, a preocupação com qualidade e com segurança da produção agrícola e pecuária estão em alta e vão aumentar ainda mais.

Concorrência entre produção de alimentos e biocombustíveis

A demanda por biocombustíveis aumenta cada vez mais. Isso tem um enorme impacto na produção agrícola destinada à alimentação. O espaço de produção agrícola é finito. Se os biocombustíveis são favorecidos, é óbvio que haverá menos produção de alimentos. Um estudo recente da Universidade da Virginia, nos Estados Unidos, sugere que cerca de um terço da população malnutrida no mundo poderia ser alimentada com os recursos que hoje são direcionados para a produção de biocombustíveis.

Uso de água e superconsumo de alimentos

Apesar do Brasil ser um país abençoado em termos de recursos hídricos, o mesmo não se pode dizer do resto do mundo. Existem países com sérios problemas de disponibilidade de água para consumo humano. A agricultura é o setor que, de longe, mais consome água. Isso leva ao questionamento se devemos consumir tanta água para a produção agrícola, em especial para uso em plantações que fornecem matéria prima para biocombustíveis. Além disso, uma produção agrícola gigantesca tem a vantagem de permitir o acesso mais barato aos alimentos. Mas, por outro lado, cria condições para uma alimentação exagerada, com consequências bastante problemáticas para a saúde das pessoas, como por exemplo, obesidade, diabetes e problemas coronarianos.

O que podemos concluir disso tudo?

É evidente que o setor de agronegócios será cada vez mais industrializado e fará um uso mais intensivo de tecnologias de ponta. Mas como já dizia o célebre físico britânico Isaac Newton, para toda ação existe uma reação. As tendências apontadas mostram que são concretas as seguintes tendências:

  • Maior regulação por parte de governos e ativismo por parte da sociedade com relação à produção de agrícola e pecuária. Os produtores e as indústrias alimentícias terão que lidar cada vez mais com questões de conformidade legal. Eu não me espantaria se o setor agrícola viesse a sofrer, por exemplo, restrições que hoje são impostas à indústria de tabaco. Já imaginou um maço de hortaliças com os seguintes dizeres na embalagem? “Não existe segurança absoluta no consumo de vegetais tratados com agrotóxicos”. E essa pressão regulatória e de ativistas aumentará não apenas por conta da necessidade de qualidade intrínseca do produto. Aumentará também por conta de impactos ambientais, uso de energia, água e até mesmo de tratamento cruel dado aos animais que fornecem proteínas.
  • Maior preocupação com questões de RH, seja pelo lado regulatório, seja pelo lado da qualificação dos empregados e, é óbvio, também pela necessidade de lidar com a questão do desemprego que as novas tecnologias já estão causando. No Brasil, por exemplo, a mecanização das culturas de cana de açúcar avança. O lado bom é que deixamos de empregar pessoas para uma atividade insalubre que é o corte de cana. O lado ruim é que essas pessoas ficam sem trabalho.
  • Maior necessidade de conhecimento de gestão de operações, gestão de projetos e estratégia empresarial. Quando eu ainda era criança o setor de agronegócio não era tão intensivo no uso de tecnologia de gestão como é atualmente. O agronegócio é hoje um mercado que demanda muito conhecimento de gestão. Vamos a um exemplo óbvio: os tratares autônomos. Não basta ao produtor adquirir tratores autônomos. Implantar essa tecnologia exige o desenvolvimento de um plano de projeto que envolve muitos aspectos, como por exemplo, seleção do fornecedor, preocupações com o suporte técnico que será dado ao equipamento, qualificação de pessoal de operação e manutenção e por aí vai.

Pois é. O futuro do agronegócio traz promessas interessantes e grandes desafios. Quem viver terá a oportunidade de confirmar que essas tendências estão aí para ficar.


1 Comentário

  1. Jose de Oliveira disse:

    Boa noite, Álvaro.
    Matéria interessante, atualissima e pertinente. Não tenho dúvida de que a sociedade atual esta sim muito mais sensível aos temas maus tratos com animais, sustentabilidade, saúde preventiva, etc. Certamente esse novo posicionamento, essa postura crítica por parte do cidadão consumidor cada vez mais irá impactar o mercado produtor.
    Parabéns pelas matérias publicadas.
    Abraços
    Oliveira

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