Alvaro Camargo, M.Sc., PMP

Quinta semana da educação executiva pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo

Semana Executiva

Esta semana tem uma evento gratuito muito interessante: a quinta semana da educação executiva, promovido pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. O evento será de segunda, 26/02/2018, até sexta feira, dia 02/03/2018, sempre das 19:00 até as 22:00 horas. Eu serei um dos palestrantes com o tema de possibilidades profissionais em gerenciamento de projetos. Vale a pena conferir o programa completo em: https://portal.fgv.br/eventos/5a-semana-educacao-executiva-fgv-management-sp

Brasil barato: a regulamentação da lei nº 13.448 de Junho de 2017 e as concessões públicas

Radar das Concessoes 2

Por Alonso Soler e Álvaro Camargo em 22 de janeiro de 2018.

Já consta do sistema eletrônico do planalto, aguardando a aprovação do presidente Temer a regulamentação da Lei nº 13.448 de Junho de 2017 que estabelece diretrizes para a relicitação dos contratos de concessão nos setores rodoviário, ferroviário e aeroportuário e que fazem parte do Programa de Parcerias em Investimentos (PPI) da Administração pública federal. A notícia, aguardada com ansiedade pelo mercado, permitirá aos atuais concessionários oficializar a “devolução” de projetos de infraestrutura que se mostraram inviáveis financeiramente e se transformaram em verdadeiros “micos” devido à frustração dos cenários e perspectivas econômicas otimistas nos últimos anos.

Relicitação de concessões

Nos termos da Lei, a relicitação compreende a extinção amigável do contrato de parceria e a celebração de um novo ajuste negocial para o empreendimento. Na cesta dos projetos que aguardam a autorização para dar prosseguimento ao trâmite de devolução e relicitação encontram-se a concessão do Aeroporto de Viracopos em Campinas, SP (Aeroportos Brasil Viracopos) e alguns trechos das rodovias BR-153 (Galvão Engenharia), BR-040 (Via 040 – Invepar), BR-163 (Rota do Oeste – Odebrecht Transporte), BR-050 (MGO Rodovias) e BR-060/153/262 (Triunfo Concebra).

O que consta no pacote da relicitação?

A regulamentação prevê que a relicitação implicará em um novo valor de outorga a ser pago pelo novo investidor. Pelo lado do atual concessionário, este poderá ser indenizado pelos investimentos realizados e não amortizados, calculados pelas agências reguladoras e acordados através das câmaras privadas de arbitragem visando conferir maior agilidade ao processo. Já os possíveis financiamentos tomados pelos antigos concessionários a taxas de juros consideradas adequadas, poderão ser repassados ao novo investidor, desde que com o aval do agente financiador.

Implicações da relicitação

Por um lado, a relicitação parece ser uma solução adequada para a continuidade das obras e a manutenção de serviços fundamentais ao país e ao cidadão que foram contratados através de parcerias público-privadas e que se tornaram inviáveis devido a circunstâncias alheias à vontade das partes. Por outro lado, a relicitação de grandes projetos de infraestrutura realizada em tempos de acirramento das crises política e econômica, rebaixamento do grau de investimentos do país e discussão acelerada sobre o descumprimento da regra de ouro e o provável aumento da dívida pública, tende a frustrar as expectativas de novos investimentos barateando os novos valores de outorga, fazendo com que as concessões provavelmente sejam negociadas na “bacia das almas” (em valor e condições) ao capital estrangeiro, ou que esses projetos simplesmente, continuem paralisados no papel e que os serviços sejam mantidos no patamar mínimo de aceitação, em prejuízo ao cidadão contribuinte. O fato é que essa situação força uma escolha entre o péssimo e o pior.

A lição aprendidas e a utopia necessária

A lição aqui aprendida é óbvia: é necessário menos interferência política e mais uso de quadros técnicos competentes e independentes para lidar com os projetos vinculados ao Estado. Mas, não seria essa uma prescrição demasiadamente utópica num país em que a ignorância dos eleitores é alta e o senso de oportunismo dos políticos é grande? Evidente que sim. Mas se a sociedade civil não abraçar essa utopia vamos continuar pagando caro para enxugar o gelo da incompetência de um Estado dominado por interesses políticos e partidários.

Gerenciamento de Conflitos Sistêmicos em Brasília

Amanhã, dia 17 de novembro de 2017, eu estarei em Brasília para ministrar para a Sociedade Brasileira de Hotelaria Hospitalar a minha palestra mais requisitada pelas organizações: Gerenciamento de Conflitos Sistêmicos. Conflitos sistêmicos são aqueles gerados a partir de sistemas sociais ou técnicos. Um sistema construído com base em princípios inadequados, acabará por apresentar, em algum momento, consequências ruins. O conceito é válido para qualquer tipo de atividade humana, seja na operação ou em projetos. Sistemas sociais e sistemas técnicos doentes geram um ambiente insalubre que induz a comportamentos problemáticos e doentios. Vale a pena conferir e trazer essa palestra para sua empresa.

Jornada

Radar de conhecimento – Um raio X do PMI Global Conference 2017 em Chicago

Por Álvaro Camargo, palestrante, pesquisador, autor, consultor e professor na área de gerenciamento de projetos e estratégia.

Estive em Chicago no período de 28 a 30 de outubro de 2017 para assistir ao PMI Global Conference 2017, o maior evento do mundo na área de Gerenciamento de Projetos. Com base no material que recebi da organização do evento, montei uma planilha a partir da qual foi possível extrair estatísticas interessantes sobre os temas mais importantes tratados no evento e que, certamente, constituem as principais tendências a serem observadas pelas organizações e profissionais de gerenciamento de projetos.

A temática dominante foi relacionada com soft skills

Quando se fala em habilidades em gerenciamento de projetos temos duas grandes vertentes: as chamadas hard skills, ou habilidades técnicas, e as soft skills, ou habilidades relacionadas ao trato com pessoas. O que se pode observar ao ver o gráfico a seguir é que mais da metade dos temas tratados nas conferências foi relacionado com soft skills, ou seja, habilidade para lidar com pessoas. As conferências sobre soft skills, além do fato de serem mais numerosas atraíram mais público na minha percepção. As salas de palestras relacionadas com soft skills estavam sempre cheias enquanto que as salas sobre assuntos técnicos estavam quase sempre com lugares vagos. Uma das palestras que eu achei que teria lotação completa era a que falava sobre inteligência artificial em gerenciamento de projetos (Sessão 439 – Artificial Intelligence and Project Management: Better Together). Embora essa palestra tenha tido boa audiência, não foi nem de longe a mais concorrida e tinha muitos lugares vagos. Isso confirma a percepção de que os problemas técnicos são passíveis de ter solução considerando a existência de tempo e orçamento para resolvê-los. Mas o grande nó continua sendo como motivar as pessoas a desenvolver um bom trabalho e como gerenciar o engajamento dos stakeholders.

Figura 1 – Hard Skills & Soft Skills

Fonte: Alvaro Camargo, PMP.

O gerenciamento de projetos puro e simples ainda é o grande tema

Como se sabe o corpo de conhecimento em projetos engloba o gerenciamento de projetos propriamente dito, o gerenciamento de programas e o gerenciamento de portfólio. O gráfico abaixo mostra que o grande interesse ainda está focado no gerenciamento de projetos, seguido pela problemática relacionada com o gerenciamento de portfólio. Aqui vale uma observação. Quando digo gerenciamento de portfólio estou incluindo o tema de Escritório de Gerenciamento de Projetos (PMO – Project Management Office), que é o órgão responsável por cuidar do portfólio de projetos numa organização. A maior surpresa foi a falta de conferências sobre gerenciamento de programas. Não houve um único palestrante abordando o tema.

Figura 2 – Gerenciamento de Portfólio, programas e projetos

Fonte: Alvaro Camargo, PMP.

O interesse pelos métodos ágeis

Uma constatação bastante forte foi o avanço do Agile como método chave para o desenvolvimento de projetos. O PMI Global Conference 2017 teve nada menos de que 15 palestras relacionadas com métodos ágeis, conforme se pode verificar no gráfico a seguir.

Figura 3 – Agile

Fonte: Alvaro Camargo, PMP.

O desinteresse com o gerenciamento de riscos 

O gráfico a seguir mostra o número de palestras relacionadas com gerenciamento de riscos em projetos: foram apenas quatro conferências em um total de oitenta e oito sessões. Convenhamos que é pouco. Esse é um assunto que precisa ser investigado. Ou as empresas estão fazendo um excelente trabalho de gerenciamento de riscos ou o gerenciamento de riscos não recebe a devida importância.

Figura 4 – Gerenciamento de riscos

Fonte: Alvaro Camargo, PMP.

Gestão de stakeholders, liderança e comunicação

Esses três temas dominaram trinta e três sessões. Isso demonstra que saber gerenciar o engajamento de stakeholders, liderar equipes e saber se comunicar adequadamente constituem pontos muito importantes para o sucesso no gerenciamento de projetos.

Figura 5 – Stakeholders, liderança e comunicação

Fonte: Alvaro Camargo, PMP.

Estratégias para lidar com riscos impossíveis de identificar

Caos

F1 Por Álvaro Camargo, Professor, Consultor e Palestrante.

São Paulo, em 02 de agosto de 2016.

O gerenciamento de riscos é um dos aspectos essenciais no planejamento e na execução de qualquer tipo de projeto. Gerir um projeto sem um método adequado de gerenciamento de riscos é uma temeridade.  O Guia PMBOK (Project Management Body of Knowledge) em sua 5ª edição define os seguintes passos para o gerenciamento de riscos em projetos:

  • Planejamento do gerenciamento de riscos;
  • Identificação de riscos;
  • Análise qualitativa dos riscos;
  • Análise quantitativa dos riscos;
  • Planejar resposta aos riscos; e
  • Controlar riscos;

Apesar da enorme importância do processo sugerido pelo Guia PMBOK, o fato é que esse método tradicional de gerenciamento lida apenas com riscos previsíveis, riscos residuais e riscos secundários, cuja definição está colocada a seguir:

  • Risco previsível: é aquele que é possível de ser identificado ou pela experiência dos profissionais envolvidos ou por um histórico de ocorrência de riscos em projetos anteriores.
  • Risco residual: é aquele que existe mesmo após termos implementado a resposta ao risco.
  • Risco secundário: é aquele que surge em decorrência da implementação de uma resposta ao risco.

Além desses três tipos, existem também os riscos que não passíveis de identificação. São os riscos para os quais não temos a menor pista de que eles existem. A literatura cientifica de gerenciamento de projetos na língua inglesa costuma chamar esse tipo de risco de Unknown Unknown (A tradução é algo como riscos desconhecidos que não sabemos que não conhecemos). Esses riscos costumam ser os mais problemáticos. Mas de onde surgem esses riscos desconhecidos e que são impossíveis de serem identificados previamente? A origem desses riscos normalmente está ligada a dois tipos de fatores:

  1. a) Fatores influenciadores impossíveis de serem identificados e que geram riscos e;
  2. b) Fatores influenciadores conhecidos que interagem fortemente entre si, de tal forma que essas interações criam uma dinâmica própria cujo resultado é impossível de prever.

Existem duas estratégias principais para lidar com riscos dessa natureza: o aprendizado através do processo de tentativa e erro, do selecionismo darwiniano e através de uma estratégia híbrida que envolve ambas as estratégias anteriores. As explicações dessas estratégias em termos bem simples são as seguintes:

Estratégia de tentativa e erro

Essa estratégia envolve fazer experimentos que possam trazer a melhor solução possível. Em cada teste, os resultados são registrados e analisados com a finalidade de gerar lições aprendidas que possam melhorar a execução do projeto. O uso desse tipo de estratégia é adequado quando as condições de melhoria obtidas num determinado teste não vão mudar no próximo teste.  Esse tipo de estratégia envolve os seguintes passos:

  • Passo 1 – A experimentação da solução deve propiciar o máximo o grau de aprendizagem possível;
  • Passo 2 – O processo de experimentação deve ser feito mesmo que envolva um certo grau de improvisação. A ideia não é obter resultados perfeitos. A ideia é obter insights que possam fazer com que a solução ideal seja enxergada;
  • Passo 3 – Analisar os resultados para fazer as melhorias necessárias;
  • Passo 4 – Melhorar os processos executivos com base nas lições aprendidas e usar a experiência obtida para desenhar o próximo experimento de forma mais efetiva; e
  • Passo 5 – Retornar ao passo 1 e refazer este ciclo quantas vezes for necessário até que se alcance a solução ideal.

Vamos a um exemplo prático para ilustrar o conceito dessa estratégia. Suponha que seu projeto envolva a fabricação e montagem de diversas comportas de controle do fluxo de água em um vertedouro numa usina hidrelétrica. Existem vários fatores que podem interagir entre si e criar uma situação de avanço muito abaixo daquilo que estava planejado. Esses fatores podem envolver, por exemplo, riscos nas seguintes áreas:

  • No projeto de engenharia das comportas feito pela empresa projetista e pela engenharia do proprietário.
  • Nos fornecedores de matéria prima para as comportas.
  • Nos componentes fabricados por subfornecedores.
  • Na fabricação das comportas.
  • Na interação entre a fiscalização do proprietário e a equipe do fabricante.
  • No transporte das peças até o canteiro de obras
  • Na pré-montagem na oficina do canteiro
  • Na logística interna de transporte de peças do canteiro de obras até o vertedouro da usina.
  • Na montagem das peças das comportas no vertedouro da usina
  • Na interação entre a equipe da empreiteira de montagem e a fiscalização.
  • Na interação entre equipes de montagem mecânica das comportas com outras equipes que disputam espaço no local de montagem.
  • Na operação e manutenção dos equipamentos envolvidos.

Embora seja possível prever os riscos e as respostas para esses riscos em cada um dos aspectos citados, é bem mais difícil prever os riscos que podem ocorrer por conta da interação simultânea entre os diversos fatores e atores envolvidos. Nesse caso a experimentação por tentativa e erro, com lições aprendidas reaplicadas às atividades pode minimizar ou evitar problemas, é uma estratégia interessante. Se, por exemplo, na montagem da primeira comporta entregue ocorrerem problemas de soldas com falhas, é possível fazer experimentos com outros processos de solda até que seja possível resolver o problema nas peças que ainda não foram montadas. Esse processo de experimentação por tentativa e erro leva a uma diminuição paulatina das incertezas na execução das demais comportas a serem fabricadas e montadas. O principal problema dessa estratégia envolve o trade-off entre:

  1. Fazer experimentação e correr o risco de o projeto não progredir conforme desejado por conta do tempo perdido em tentativas e erros ou;
  2. Não fazer experimentações e o projeto não progredir por conta de riscos que vão surgindo sem que possa ter uma resposta para esses riscos.

Selecionismo Darwiniano

O selecionismo darwiniano é usado em situações complexas nas quais a melhoria num aspecto piora outro aspecto que também é importante para o projeto. Vamos a um exemplo: quando a indústria farmacêutica desenvolve o projeto de uma nova molécula para uso em um novo medicamento, a interação entre diversos fatores pode fazer com que os resultados sejam imprevisíveis. Uma certa molécula pode criar condições de cura de um tumor num determinado órgão do corpo e, ao mesmo tempo, criar danos em vários outros órgãos. Nesse caso o problema envolve múltiplas dimensões que tornam difícil saber qual é a melhor solução. Num problema desse tipo, a solução média, ou seja, aquela que cria menos danos pode não ser satisfatória. O medicamento na formulação X, que é o menos causa danos no organismo, pode não resolver o problema fundamental que é curar a doença. Na literatura cientifica em inglês, esse tipo de problema é chamado de wicked problem (Problema perverso).  Nesse caso o selecionismo é a alternativa disponível para buscar minimizar a incerteza de ocorrência dos riscos do projeto. O processo de seleção darwiniana funciona da seguinte forma:

  1. Definir as restrições e os critérios de aceitação da solução. Essas restrições e critérios devem ser continuamente revistos ao longo do desenvolvimento dos trabalhos.
  2. Desenvolver experimentações em paralelo para que se possa encontrar uma intersecção aceitável no conjunto de possíveis soluções. A ideia aqui é buscar soluções que possam ser aplicadas de forma sucessiva em diferentes conjuntos de combinações de restrições. Observe que esse processo, da mesma forma como no processo anterior de tentativa e erro, também envolve experimentações. Mas, no método de seleção darwiniana, as diversas experimentações são feitas em paralelo por equipes que buscam a melhor solução possível entre diversos fatores que competem entre si. No exemplo da hidrelétrica, colocado anteriormente, a melhoria num processo de solda na fábrica, por exemplo, não vai afetar o desempenho no transporte e da montagem das peças em campo ou vice-versa. Mas no caso do desenvolvimento de um medicamento, a melhoria da eficácia no combate à doença pode criar outra doença em outra parte do corpo.
  3. c) Confirmar que uma determinada solução é factível antes de se comprometer com a escolha dessa solução.
  4. d) Eliminar as soluções que não contribuíram para o avanço do projeto. O nome de selecionismo darwiniano vem exatamente do fato de que as soluções que não se mostram promissoras são simplesmente descartadas. A única coisa que não é descartada são as lições aprendidas que podem ser úteis para melhorar a chance de encontrar a solução ideal nos outros experimentos. Mesmo que um experimento falhe, ele pode trazer lições aprendidas preciosas.

Obviamente o maior problema nesse tipo de estratégia envolve a resposta as seguintes perguntas essenciais:

  • Quantas tentativas de experimentação em paralelo devem ser feitas?
  • Quando se deve parar com as experimentações?
  • A solução encontrada é efetiva, ou seja, ela resolve o problema sem criar outros problemas impossíveis de serem resolvidos?

Infelizmente não há uma receita certa aqui. O máximo que se pode dizer é que quanto mais complexo é um problema, maior deve ser o número de tentativas. Mas é evidente que o número de tentativas é limitado à capacidade da organização executora do projeto em fazê-las por conta das limitações de recursos e de tempo.

Conclusão

O presente artigo definiu que existem riscos que são desconhecidos e cuja existência pode ser impossível de ser identificada. São os chamados Unknown Unknown (ou problemas perversos) que a literatura cientifica de gerenciamento de projetos coloca. Foi explicado que esse tipo de risco ocorre ou por fatores influenciadores impossíveis de serem identificados e que geram riscos ou por fatores influenciadores conhecidos que interagem fortemente entre si e criam uma dinâmica própria cujo resultado é impossível de prever. Por fim, o artigo trouxe duas possíveis estratégias de como lidar com esses riscos.

A face oculta do inimigo

FaceOculta

São Paulo, 27 de junho de 2017 – Por Álvaro Camargo, consultor, autor, palestrante e professor.

O artigo que eu escrevi sobre seguros cibernéticos em 05/06/2017 virou uma reportagem completa pelas mãos da jornalista Aurora Ayres na Revista Seguro Total, edição 179. A reportagem especial contou com a participação de diversos executivos da área de seguros e especialistas em segurança cibernética. Os seguros cibernéticos constituem um novo filão para as corretoras e seguradoras e vão gerar a possibilidade de muitos projetos. As seguradoras precisam desenvolver produtos para esse nicho de mercado. E os clientes precisam desenvolver projetos de melhoria das condições de segurança de seus sistemas de TI para obter seguros com preços menores. A revista completa, em formato eletrônico PDF, pode ser baixada no link abaixo. O nome da reportagem é a “Face Oculta do Inimigo“. Leitura recomendável para executivos de TI e executivos de seguradoras e de corretoras de seguro.

Link para baixar a edição 179 da revista Seguro Total: http://revistasegurototal.com.br/wp-content/uploads/2017/05/revista-seguro-total-178_site.pdf

Link do artigo original publicado no blog em 05/06/2017: https://alvarocamargo.com/2017/06/05/seguros-ciberneticos-nasce-um-novo-segmento-na-area-de-seguros-com-muitas-oportunidades-profissionais/

Radar de tendências no agronegócio

Soja

Em 26 de junho de 2017, por Álvaro Camargo, professor, consultor, autor e palestrante.

Como Professor da Fundação Getúlio Vargas, consultor e pesquisador na área de projetos, negócios e estratégia, sempre tenho um olho no agronegócio. Como se sabe, o Brasil, apesar de todos os seus problemas, é um dos líderes mundiais na produção agropecuária. Por conta disso resolvi colocar neste artigo algumas tendências importantes nessa área.  O conhecimento dessas tendências pode ajudar empresas e profissionais a manterem uma atuação relevante no mercado.

Bem-estar animal e uso de práticas não cruéis

Cada vez mais as pessoas passam a entender os animais como seres sencientes. Senciência é a capacidade dos seres de sentir algo de forma conscientemente, ou seja, ter sensações e sentimentos. Um ser senciente tem a capacidade de perceber conscientemente o que ocorre no contexto no qual está inserido e tem sentimentos. Cães, gatos, vacas, bois e cavalos são exemplos de seres que sencientes. Cada vez mais as pessoas se tornam cientes desse fato. E por isso, as práticas cruéis de criação ou de abate de animas vêm sendo rejeitadas. Uma simples visualização de vídeos ou fotos em redes sociais mostrando tratamento cruel de animais pode ser suficiente para criar estragos na reputação de uma empresa. E uma reputação ruim, como todos sabemos, gera perda de negócios. A empresa Whole Foods Market, recentemente adquirida pela Amazon por quase US$ 14 bilhões, desenvolveu um Sistema de pontuação para aferir se as fazendas, os matadouros e as indústrias alimentícias usam práticas cruéis. Se a pontuação indicar o uso de práticas cruéis o fornecedor dessa rede de varejo terá menos acesso ao mercado. Ponto para aqueles que defendem uma forma responsável de lidar com os animais, mesmo que venham a servir de alimento para os humanos.

O impacto do aumento de produtividade por conta das tecnologias de ponta

Como todos sabemos, a busca pelo aumento da produtividade é incessante. Mas nesse momento a humanidade está experimentando um aumento excepcional de produtividade no agronegócio. Isso é possível devido ao emprego de novas tecnologias, como por exemplo, tratores autônomos, melhoria genética, agricultura de precisão e outras práticas de ponta. O resultado é que o aumento de produtividade, embora muito benéfica para os consumidores, cria uma situação de superabundância com reflexos óbvios no resultado econômico dos produtores. O aumento da oferta diminui os preços. Isso é bom para manter a inflação estabilizada e para quem precisa comprar alimentos. Mas os produtores terão que desenvolver projetos que façam com que o custo de produção caia na mesma proporção da queda dos preços. O descompasso entre os custos de produção e preços terá consequências nefastas para os produtores que não conseguirem se ajustar.

Desconfiança com certas tecnologias

Algumas tecnologias empregadas no agronegócio são vistas com grande desconfiança por boa parte das pessoas. O caso mais emblemático é a dos alimentos modificados geneticamente, também conhecidos por transgênicos. Embora algumas pessoas não se importem com alimentos transgênicos, é inegável que existe uma grande resistência ao consumo desses alimentos. O espectro de desconfiança é grande e vai desde a preocupação com problemas de saúde, como por exemplo, reações alérgicas, até preocupações com danos ao meio ambiente. O web site do World Economic Forum traz um artigo que reporta a relutância de países africanos em consumir safras modificadas geneticamente.

O uso de agrotóxicos é outro exemplo comum de tecnologia que levanta muita suspeita por conta do perigo de poluição e por, supostamente, causar doenças cancerígenas por aqueles que consomem produtos tratados com agrotóxicos.  Não é à toa que a oferta de alimentos orgânicos aumenta cada vez mais nos supermercados. Mas, mesmo os alimentos orgânicos também têm seu lado negativo. De um modo geral, a produtividade de orgânicos é menor. Isso exige mais área plantada, o que tende a aumentar o consumo de água, assim como aumenta o uso de terras para agricultura.

Nanomateriais usados na área de agronegócios constitui outra fonte de preocupação. A nanotecnologia promete coisas muito interessantes. Mas a produção e a manipulação de nanomateriais deve ser segura. Uma publicação interessante sobre isso é o “Nanossegurança: Guia de Boas Práticas em Nanotecnologia para Fabricação e Laboratórios “, cujo conteúdo foi coordenado pelos pesquisadores Leandro Antunes Berti, Luismar Marques Porto e outros autores. Felizmente o Brasil já tem acadêmicos pesquisando sobre o assunto.

Rastreabilidade da produção

Haverá uma exigência cada vez maior de rastreabilidade sobre a origem do produto. A reportagem do site fastcompany.com, trata dessa questão nos Estados Unidos. A revista Food Safety Magazine relata que em 2015 ocorreram 626 recalls de produtos nos EUA.  A situação no Brasil não é muito diferente. O Carrefour, varejista de origem francesa e que atua em muitos países, incorporou em suas práticas na operação brasileira o rastreamento de frutas, legumes e vegetais já há alguns anos. É a chamada garantia de origem. A preocupação com a rastreabilidade dos produtos está relacionada com a questão de segurança do consumidor e é um mecanismo de proteção jurídica e de manutenção da reputação do varejista. Por isso, a preocupação com qualidade e com segurança da produção agrícola e pecuária estão em alta e vão aumentar ainda mais.

Concorrência entre produção de alimentos e biocombustíveis

A demanda por biocombustíveis aumenta cada vez mais. Isso tem um enorme impacto na produção agrícola destinada à alimentação. O espaço de produção agrícola é finito. Se os biocombustíveis são favorecidos, é óbvio que haverá menos produção de alimentos. Um estudo recente da Universidade da Virginia, nos Estados Unidos, sugere que cerca de um terço da população malnutrida no mundo poderia ser alimentada com os recursos que hoje são direcionados para a produção de biocombustíveis.

Uso de água e superconsumo de alimentos

Apesar do Brasil ser um país abençoado em termos de recursos hídricos, o mesmo não se pode dizer do resto do mundo. Existem países com sérios problemas de disponibilidade de água para consumo humano. A agricultura é o setor que, de longe, mais consome água. Isso leva ao questionamento se devemos consumir tanta água para a produção agrícola, em especial para uso em plantações que fornecem matéria prima para biocombustíveis. Além disso, uma produção agrícola gigantesca tem a vantagem de permitir o acesso mais barato aos alimentos. Mas, por outro lado, cria condições para uma alimentação exagerada, com consequências bastante problemáticas para a saúde das pessoas, como por exemplo, obesidade, diabetes e problemas coronarianos.

O que podemos concluir disso tudo?

É evidente que o setor de agronegócios será cada vez mais industrializado e fará um uso mais intensivo de tecnologias de ponta. Mas como já dizia o célebre físico britânico Isaac Newton, para toda ação existe uma reação. As tendências apontadas mostram que são concretas as seguintes tendências:

  • Maior regulação por parte de governos e ativismo por parte da sociedade com relação à produção de agrícola e pecuária. Os produtores e as indústrias alimentícias terão que lidar cada vez mais com questões de conformidade legal. Eu não me espantaria se o setor agrícola viesse a sofrer, por exemplo, restrições que hoje são impostas à indústria de tabaco. Já imaginou um maço de hortaliças com os seguintes dizeres na embalagem? “Não existe segurança absoluta no consumo de vegetais tratados com agrotóxicos”. E essa pressão regulatória e de ativistas aumentará não apenas por conta da necessidade de qualidade intrínseca do produto. Aumentará também por conta de impactos ambientais, uso de energia, água e até mesmo de tratamento cruel dado aos animais que fornecem proteínas.
  • Maior preocupação com questões de RH, seja pelo lado regulatório, seja pelo lado da qualificação dos empregados e, é óbvio, também pela necessidade de lidar com a questão do desemprego que as novas tecnologias já estão causando. No Brasil, por exemplo, a mecanização das culturas de cana de açúcar avança. O lado bom é que deixamos de empregar pessoas para uma atividade insalubre que é o corte de cana. O lado ruim é que essas pessoas ficam sem trabalho.
  • Maior necessidade de conhecimento de gestão de operações, gestão de projetos e estratégia empresarial. Quando eu ainda era criança o setor de agronegócio não era tão intensivo no uso de tecnologia de gestão como é atualmente. O agronegócio é hoje um mercado que demanda muito conhecimento de gestão. Vamos a um exemplo óbvio: os tratares autônomos. Não basta ao produtor adquirir tratores autônomos. Implantar essa tecnologia exige o desenvolvimento de um plano de projeto que envolve muitos aspectos, como por exemplo, seleção do fornecedor, preocupações com o suporte técnico que será dado ao equipamento, qualificação de pessoal de operação e manutenção e por aí vai.

Pois é. O futuro do agronegócio traz promessas interessantes e grandes desafios. Quem viver terá a oportunidade de confirmar que essas tendências estão aí para ficar.

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