Alvaro Camargo, M.Sc., PMP

Leia esse artigo se você quer usar ferramentas de software gratuitamente

Por Álvaro Camargo, autor, professor, consultor e palestrante – São Paulo, 13 de março de 2018.


RadarSoftwareGratis

Como consultor de empresas e como professor de pós-graduação eu sempre recebo uma pergunta fatídica: existem ferramentas de software gratuitas que possam ser usadas para planejar projetos, montar repositórios de documentos, fazer cálculos e simulações ou qualquer outra necessidade minha ou da empresa na qual eu trabalho? Como é uma pergunta muito recorrente, resolvi escrever esse artigo para esclarecer o tema. Assim, sempre que me fizerem a pergunta eu enviarei o link com esse artigo. Existem as seguintes maneiras de conseguir ferramentas de software:

Maneira 1 – Compra de licença

Existem softwares em que é necessário comprar a licença para instalar no computador. Ferramentas desse tipo naturalmente não podem ser obtidas de forma gratuita a menos que você faça pirataria do software. A vantagem aqui é que a ferramenta é suportada pelo desenvolvedor e fica fácil obter suporte técnico para dificuldades.

Maneira 2 – Software livre

Existem softwares livre de código aberto que são mantidos por uma comunidade de desenvolvedores. O sistema operacional Linux é um exemplo disso. Nesse caso não existe custo de licenciamento. Mas pode existir o custo do suporte técnico caso a pessoa que vá usar não seja capaz de se comunicar ou de entender as discussões técnicas nas comunidades virtuais que existem na internet sobre a ferramenta desejada. Além disso não existe suporte técnico em estado de prontidão para assistir ao usuário. Normalmente o máximo que existe são grupos de discussão da comunidade que usa o software. Uma resposta para uma dúvida pode demorar desde de algumas horas até vários dias.

Maneira 3 – Ferramentas proprietárias de uso gratuito

Existem ferramentas proprietárias cujo uso é gratuito. Um exemplo disso são as ferramentas de visualização de algum tipo especifico de arquivo. O Adobe Acrobat Reader é um exemplo disso. Observe que esse topo de ferramenta normalmente tem funcionalidades limitadas.

Maneira 4 – Ferramentas patrocinadas de software

Existem ferramentas patrocinadas de software disponíveis na internet ou que podem ser baixados no computador do usuário. Nesse caso o uso do software é gratuito para o usuário. Mas isso não quer dizer que a ferramenta seja grátis. Alguém paga para fazer propaganda através do software. Por isso que ele é gratuito para o usuário. Um exemplo é o serviço de hospedagem gratuita de vídeos Youtube e o serviço de hospedagem gratuita de apresentações Slideshare. Antigamente, no final de século passado, também havia algumas aplicações de software que podiam ser instaladas no computador do usuário e que continham propaganda. Mas esse tipo de ferramenta está sendo descontinuada. Observe que neste caso o produto é a pessoa que usa a ferramenta. A empresa que fornece o software vende o conteúdo ou os dados do usuário para seus clientes. É aquela velha história: se a solução é gratuita, o produto é você.

Maneira 5 – Ferramentas gratuitas que viabilizam compras pelo usuário

Existem ferramentas gratuitas que permitem compras dentro do aplicativo. Nesse caso a ferramenta é gratuita porque ela permite o acesso à dados, informações ou serviços que o fornecedor vende. Um exemplo disso são os aplicativos de companhias áreas e websites de venda de passagens.

Maneira 6 – Software fornecido como serviço

Aqui estamos falando de software fornecido como serviço e hospedado na nuvem, acessível via internet. Neste caso não existe nada gratuito. Esse tipo de solução normalmente é fornecido através do modelo de negócio Freemium, ou seja, o usuário pode usar a ferramenta sem pagar nada até certo limite. A partir desse limite a solução é paga. As limitações podem ser diversas: espaço de armazenamento limitado, número de usuários limitado, prazo de uso limitado, quantidade de dados que a solução gerencia, banda de conexão limitada, negação de backup dos dados armazenados, negação de suporte técnico ou alguma outra forma de limitação. Para eliminar as limitações, é necessário pagar para desbloquear a funcionalidade completa ou parcial da solução. As soluções GDrive, DropBox, OndeDrive, Zoho, Agiloft e Linkedin funcionam dessa maneira.

Maneira 7 – Software de presente

Aplicativos de software podem ser comprados por terceiros para serem presenteados para um determinado usuário. O exemplo mais comum disso é quando você compra um cartão de XBOX para que o seu filho possa jogar gratuitamente jogos pagos. Observe que o uso do software é gratuito para seu filho, mas não para você que é pai ou mãe da criança.

Maneira 8 – Sorteio

É relativamente comum, especialmente em feiras especializadas e congressos, que alguns fornecedores de soluções de software façam um sorteio de seus produtos. Não é exatamente fácil ganhar um sorteio. E raramente isso é gratuito. Afinal, para participar de um congresso ou de uma feira, quase sempre é necessário comprar a entrada do evento, sem contar com os custos de deslocamento e hospedagem ao local.

Resumo da história: não existe almoço grátis.

Surpreenda-se: conheça o Portfólio de Programas e Projetos do Banco Central do Brasil

Por Álvaro Camargo em 02 de março de 2018.BancoCentral2

Quando se fala de portfólio de projetos e programas é bastante comum que as pessoas pensem em projetos de produtos, projetos de construção ou projetos de tecnologia da informação e melhoria de processos. Mas como seria o portfólio de projetos e programas da uma autarquia Federal, como por exemplo, o Banco Central?

A seguir estão colocados os principais programas e projetos atualmente em desenvolvimento pelo Banco Central do Brasil conforme a apresentação feita pelo Presidente do Banco Central do Brasil em palestra na Câmara Espanhola de Comércio no Brasil no dia 26 de fevereiro de 2018:

1.    Autonomia do BC

Esse é um projeto típico de gerenciamento de Stakeholders em projetos. Há que se engajar o Congresso, o Executivo e a população a apoiar a existência de um Banco Central autônomo. Como se sabe, a autonomia do Banco Central de um país é um seguro contra aventuras de quem está no poder. É bastante tentador para qualquer governo, tentar melhorar o nível de atividade econômica através do aumento de liquidez (dinheiro em circulação na economia). Se o Banco Central for autônomo, ele consegue retirar de circulação a liquidez excessiva que poderia criar inflação, aquele monstro que, como todos sabem, cria enormes complicações para o setor produtivo e cobra o mais injusto imposto que pode existir: a perda de poder aquisitivo da camada pobre da população que não tem meios de se proteger.

2.    Cadastro positivo

O cadastro positivo serve para diferenciar qualitativamente devedores. Pessoas e empresas podem estar inadimplentes, mas querem pagar. Por outro lado, existem pessoas e empresas que são inadimplentes contumazes. Sem o cadastro positivo, coloca-se todos os devedores num saco só. A consequência óbvia é o encarecimento do crédito.

3.    Depósito voluntário

Depósito voluntário é um instrumento de controle de liquidez que evita o uso da venda com compromisso de recompra dos títulos públicos de sua carteira. Com os depósitos voluntários, o Banco Central ganha maior autonomia, uma vez que deixa de depender exclusivamente dessas operações para regular a liquidez bancária. Isso ajuda a manter a taxa básica de juros (Selic) próxima da meta fixada pelo Comitê de Política Monetária.

4.    Duplicata eletrônica

A fatura duplicata mercantil ou simplesmente duplicata é uma espécie de título de crédito que constitui o instrumento de prova do contrato de compra e venda, que é regulada pela Lei N° 5.474 de 18 de julho de 1968. Na atual era da tecnologia da informação, faz sentido que as duplicatas sejam eletrônicas. Ocorre que as duplicatas virtuais ainda constituem tema polêmico na doutrina jurídica brasileira pois a geração eletrônica de boletos bancários “frios”, sem lastros em duplicatas reais, é fácil. O aperfeiçoamento da legislação sobre a duplicata eletrônica será um avanço importante para desburocratizar esse instrumento financeiro importante, facilitando a vida de quem faz negócios.

5.    Relação BC – CADE

Esse é um outro exemplo de projeto de relações governamentais que envolve a área de gerenciamento de Stakeholder. O Banco Central e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) têm histórico de relação conflituosa sobre o tema. Ao analisar movimentos de aquisição e fusão no setor bancário, o Banco Central tem como principal ponto de atenção a análise do risco sistêmico. As avaliações do Banco Central não necessariamente têm resultado semelhante às avaliações feita pelo Cade, que observa os negócios pela ótica concorrencial.

6.    Diminuição do Spread bancário

O Brasil tem um histórico de ter um Spread bancário enorme. Spread, como se sabe, é a diferença entre o custo do dinheiro para o banco (o quanto ele paga ao tomar empréstimo) e o quanto ele cobra para o consumidor na operação de crédito.

7.    Relação BC – Tesouro

Mais um projeto com intenso uso de gerenciamento de Stakeholders e, é lógico, conhecimento técnico em finanças públicas. Existe o argumento de que o dinheiro do lucro do BC, repassado ao Tesouro, teria ajudado indiretamente o governo a pagar as chamadas pedaladas fiscais – as dívidas junto aos bancos e o FGTS atrasadas no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff para melhorar artificialmente as contas públicas e que o Tribunal de Contas da União (TCU) mandou pagar. A aprovação do projeto de lei 9283/2017 reduziria os fluxos de transferência entre tesouro nacional e Banco Central e daria mais transparência a essa relação, gerando menor pressão sobre o endividamento público e menor gasto com pagamento de juros pela União.

8.    Redução do uso de papel moeda

O uso de papel moeda está com os dias contados. Meios eletrônicos de pagamento apresentam muitas vantagens, como por exemplo, menor custo, mais conveniência para os agentes econômicos e maior controle sobre fraudes. Entretanto reduzir o uso do papel moeda não é tão simples como parece. Essa é a razão da existência desse programa.

9.    Fintechs de crédito

Fintech são empresas financeiras de base tecnológica. A existência das Fintechs é positiva não apenas para melhorar a conveniência para investidores e tomadores de recursos. A existência de Fintechs faz com que haja maior concorrência no mercado financeiro, com a consequente oferta de produtos de crédito e de investimento mais atrativos, com óbvia contribuição para a dinamização do desenvolvimento econômico dos países.

10. Segurança cibernética

Esse é o programa mais fácil de entender. “Maracutaias” existem desde que o ser humano existe. Mas com a tecnologia da informação, ficou mais fácil furtar e fraudar. Então um programa para melhoria da segurança cibernética faz todo o sentido.

11. Lei de resolução bancária

Esse é um projeto que busca regulamentar o marco legal de assuntos como liquidação e intervenção em instituições financeiras em caso de bancos com dificuldades. Isso aumenta a segurança do sistema financeiro nacional e contribui para uma melhoria no ambiente de negócios.

12. Desenvolvimento do novo web site do Banco Central

A ideia aqui é simples: ter um sítio web mais funcional e mais informativo sobre a instituição e sua missão.

13. Aperfeiçoamento de soluções de conflito com o sistema financeiro nacional.

A ideia aqui é criar mecanismos para facilitar a solução de conflitos entre cidadãos e empresas com o sistema financeiro nacional. Isso desburocratiza a vida de que faz negócios, alivia a justiça e abaixa os custos dos financiamentos.

14. Aumento do nível de educação financeira do brasileiro

Esse também é um programa fácil de entender. Infelizmente o brasileiro é um povo com baixa educação em geral. No tocante à educação financeira, a situação é pior ainda. Quem não conhece alguém que faz compras parceladas a perder de vista e não percebe que está pagando muito caro por algo por causa das taxas de juros embutidas no parcelamento de pagamento daquilo que foi comprado?

15. Inserção do Banco Central nas mídias sociais

Quaisquer organizações hoje lutam para se manter relevantes. Por isso a presença digital atualmente é tão importante não apenas para o setor privado, mas também para autarquias como o Banco Central. A sociedade precisa saber o que cada órgão público faz e como faz. Se isso não transparente, o órgão pode estar sujeito à criticas e perda de prestigio.

Quinta semana da educação executiva pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo

Semana Executiva

Esta semana tem uma evento gratuito muito interessante: a quinta semana da educação executiva, promovido pela Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. O evento será de segunda, 26/02/2018, até sexta feira, dia 02/03/2018, sempre das 19:00 até as 22:00 horas. Eu serei um dos palestrantes com o tema de possibilidades profissionais em gerenciamento de projetos. Vale a pena conferir o programa completo em: https://portal.fgv.br/eventos/5a-semana-educacao-executiva-fgv-management-sp

Brasil barato: a regulamentação da lei nº 13.448 de Junho de 2017 e as concessões públicas

Radar das Concessoes 2

Por Alonso Soler e Álvaro Camargo em 22 de janeiro de 2018.

Já consta do sistema eletrônico do planalto, aguardando a aprovação do presidente Temer a regulamentação da Lei nº 13.448 de Junho de 2017 que estabelece diretrizes para a relicitação dos contratos de concessão nos setores rodoviário, ferroviário e aeroportuário e que fazem parte do Programa de Parcerias em Investimentos (PPI) da Administração pública federal. A notícia, aguardada com ansiedade pelo mercado, permitirá aos atuais concessionários oficializar a “devolução” de projetos de infraestrutura que se mostraram inviáveis financeiramente e se transformaram em verdadeiros “micos” devido à frustração dos cenários e perspectivas econômicas otimistas nos últimos anos.

Relicitação de concessões

Nos termos da Lei, a relicitação compreende a extinção amigável do contrato de parceria e a celebração de um novo ajuste negocial para o empreendimento. Na cesta dos projetos que aguardam a autorização para dar prosseguimento ao trâmite de devolução e relicitação encontram-se a concessão do Aeroporto de Viracopos em Campinas, SP (Aeroportos Brasil Viracopos) e alguns trechos das rodovias BR-153 (Galvão Engenharia), BR-040 (Via 040 – Invepar), BR-163 (Rota do Oeste – Odebrecht Transporte), BR-050 (MGO Rodovias) e BR-060/153/262 (Triunfo Concebra).

O que consta no pacote da relicitação?

A regulamentação prevê que a relicitação implicará em um novo valor de outorga a ser pago pelo novo investidor. Pelo lado do atual concessionário, este poderá ser indenizado pelos investimentos realizados e não amortizados, calculados pelas agências reguladoras e acordados através das câmaras privadas de arbitragem visando conferir maior agilidade ao processo. Já os possíveis financiamentos tomados pelos antigos concessionários a taxas de juros consideradas adequadas, poderão ser repassados ao novo investidor, desde que com o aval do agente financiador.

Implicações da relicitação

Por um lado, a relicitação parece ser uma solução adequada para a continuidade das obras e a manutenção de serviços fundamentais ao país e ao cidadão que foram contratados através de parcerias público-privadas e que se tornaram inviáveis devido a circunstâncias alheias à vontade das partes. Por outro lado, a relicitação de grandes projetos de infraestrutura realizada em tempos de acirramento das crises política e econômica, rebaixamento do grau de investimentos do país e discussão acelerada sobre o descumprimento da regra de ouro e o provável aumento da dívida pública, tende a frustrar as expectativas de novos investimentos barateando os novos valores de outorga, fazendo com que as concessões provavelmente sejam negociadas na “bacia das almas” (em valor e condições) ao capital estrangeiro, ou que esses projetos simplesmente, continuem paralisados no papel e que os serviços sejam mantidos no patamar mínimo de aceitação, em prejuízo ao cidadão contribuinte. O fato é que essa situação força uma escolha entre o péssimo e o pior.

A lição aprendidas e a utopia necessária

A lição aqui aprendida é óbvia: é necessário menos interferência política e mais uso de quadros técnicos competentes e independentes para lidar com os projetos vinculados ao Estado. Mas, não seria essa uma prescrição demasiadamente utópica num país em que a ignorância dos eleitores é alta e o senso de oportunismo dos políticos é grande? Evidente que sim. Mas se a sociedade civil não abraçar essa utopia vamos continuar pagando caro para enxugar o gelo da incompetência de um Estado dominado por interesses políticos e partidários.

Gerenciamento de Conflitos Sistêmicos em Brasília

Amanhã, dia 17 de novembro de 2017, eu estarei em Brasília para ministrar para a Sociedade Brasileira de Hotelaria Hospitalar a minha palestra mais requisitada pelas organizações: Gerenciamento de Conflitos Sistêmicos. Conflitos sistêmicos são aqueles gerados a partir de sistemas sociais ou técnicos. Um sistema construído com base em princípios inadequados, acabará por apresentar, em algum momento, consequências ruins. O conceito é válido para qualquer tipo de atividade humana, seja na operação ou em projetos. Sistemas sociais e sistemas técnicos doentes geram um ambiente insalubre que induz a comportamentos problemáticos e doentios. Vale a pena conferir e trazer essa palestra para sua empresa.

Jornada

Radar de conhecimento – Um raio X do PMI Global Conference 2017 em Chicago

Por Álvaro Camargo, palestrante, pesquisador, autor, consultor e professor na área de gerenciamento de projetos e estratégia.

Estive em Chicago no período de 28 a 30 de outubro de 2017 para assistir ao PMI Global Conference 2017, o maior evento do mundo na área de Gerenciamento de Projetos. Com base no material que recebi da organização do evento, montei uma planilha a partir da qual foi possível extrair estatísticas interessantes sobre os temas mais importantes tratados no evento e que, certamente, constituem as principais tendências a serem observadas pelas organizações e profissionais de gerenciamento de projetos.

A temática dominante foi relacionada com soft skills

Quando se fala em habilidades em gerenciamento de projetos temos duas grandes vertentes: as chamadas hard skills, ou habilidades técnicas, e as soft skills, ou habilidades relacionadas ao trato com pessoas. O que se pode observar ao ver o gráfico a seguir é que mais da metade dos temas tratados nas conferências foi relacionado com soft skills, ou seja, habilidade para lidar com pessoas. As conferências sobre soft skills, além do fato de serem mais numerosas atraíram mais público na minha percepção. As salas de palestras relacionadas com soft skills estavam sempre cheias enquanto que as salas sobre assuntos técnicos estavam quase sempre com lugares vagos. Uma das palestras que eu achei que teria lotação completa era a que falava sobre inteligência artificial em gerenciamento de projetos (Sessão 439 – Artificial Intelligence and Project Management: Better Together). Embora essa palestra tenha tido boa audiência, não foi nem de longe a mais concorrida e tinha muitos lugares vagos. Isso confirma a percepção de que os problemas técnicos são passíveis de ter solução considerando a existência de tempo e orçamento para resolvê-los. Mas o grande nó continua sendo como motivar as pessoas a desenvolver um bom trabalho e como gerenciar o engajamento dos stakeholders.

Figura 1 – Hard Skills & Soft Skills

Fonte: Alvaro Camargo, PMP.

O gerenciamento de projetos puro e simples ainda é o grande tema

Como se sabe o corpo de conhecimento em projetos engloba o gerenciamento de projetos propriamente dito, o gerenciamento de programas e o gerenciamento de portfólio. O gráfico abaixo mostra que o grande interesse ainda está focado no gerenciamento de projetos, seguido pela problemática relacionada com o gerenciamento de portfólio. Aqui vale uma observação. Quando digo gerenciamento de portfólio estou incluindo o tema de Escritório de Gerenciamento de Projetos (PMO – Project Management Office), que é o órgão responsável por cuidar do portfólio de projetos numa organização. A maior surpresa foi a falta de conferências sobre gerenciamento de programas. Não houve um único palestrante abordando o tema.

Figura 2 – Gerenciamento de Portfólio, programas e projetos

Fonte: Alvaro Camargo, PMP.

O interesse pelos métodos ágeis

Uma constatação bastante forte foi o avanço do Agile como método chave para o desenvolvimento de projetos. O PMI Global Conference 2017 teve nada menos de que 15 palestras relacionadas com métodos ágeis, conforme se pode verificar no gráfico a seguir.

Figura 3 – Agile

Fonte: Alvaro Camargo, PMP.

O desinteresse com o gerenciamento de riscos 

O gráfico a seguir mostra o número de palestras relacionadas com gerenciamento de riscos em projetos: foram apenas quatro conferências em um total de oitenta e oito sessões. Convenhamos que é pouco. Esse é um assunto que precisa ser investigado. Ou as empresas estão fazendo um excelente trabalho de gerenciamento de riscos ou o gerenciamento de riscos não recebe a devida importância.

Figura 4 – Gerenciamento de riscos

Fonte: Alvaro Camargo, PMP.

Gestão de stakeholders, liderança e comunicação

Esses três temas dominaram trinta e três sessões. Isso demonstra que saber gerenciar o engajamento de stakeholders, liderar equipes e saber se comunicar adequadamente constituem pontos muito importantes para o sucesso no gerenciamento de projetos.

Figura 5 – Stakeholders, liderança e comunicação

Fonte: Alvaro Camargo, PMP.

Estratégias para lidar com riscos impossíveis de identificar

Caos

F1 Por Álvaro Camargo, Professor, Consultor e Palestrante.

São Paulo, em 02 de agosto de 2016.

O gerenciamento de riscos é um dos aspectos essenciais no planejamento e na execução de qualquer tipo de projeto. Gerir um projeto sem um método adequado de gerenciamento de riscos é uma temeridade.  O Guia PMBOK (Project Management Body of Knowledge) em sua 5ª edição define os seguintes passos para o gerenciamento de riscos em projetos:

  • Planejamento do gerenciamento de riscos;
  • Identificação de riscos;
  • Análise qualitativa dos riscos;
  • Análise quantitativa dos riscos;
  • Planejar resposta aos riscos; e
  • Controlar riscos;

Apesar da enorme importância do processo sugerido pelo Guia PMBOK, o fato é que esse método tradicional de gerenciamento lida apenas com riscos previsíveis, riscos residuais e riscos secundários, cuja definição está colocada a seguir:

  • Risco previsível: é aquele que é possível de ser identificado ou pela experiência dos profissionais envolvidos ou por um histórico de ocorrência de riscos em projetos anteriores.
  • Risco residual: é aquele que existe mesmo após termos implementado a resposta ao risco.
  • Risco secundário: é aquele que surge em decorrência da implementação de uma resposta ao risco.

Além desses três tipos, existem também os riscos que não passíveis de identificação. São os riscos para os quais não temos a menor pista de que eles existem. A literatura cientifica de gerenciamento de projetos na língua inglesa costuma chamar esse tipo de risco de Unknown Unknown (A tradução é algo como riscos desconhecidos que não sabemos que não conhecemos). Esses riscos costumam ser os mais problemáticos. Mas de onde surgem esses riscos desconhecidos e que são impossíveis de serem identificados previamente? A origem desses riscos normalmente está ligada a dois tipos de fatores:

  1. a) Fatores influenciadores impossíveis de serem identificados e que geram riscos e;
  2. b) Fatores influenciadores conhecidos que interagem fortemente entre si, de tal forma que essas interações criam uma dinâmica própria cujo resultado é impossível de prever.

Existem duas estratégias principais para lidar com riscos dessa natureza: o aprendizado através do processo de tentativa e erro, do selecionismo darwiniano e através de uma estratégia híbrida que envolve ambas as estratégias anteriores. As explicações dessas estratégias em termos bem simples são as seguintes:

Estratégia de tentativa e erro

Essa estratégia envolve fazer experimentos que possam trazer a melhor solução possível. Em cada teste, os resultados são registrados e analisados com a finalidade de gerar lições aprendidas que possam melhorar a execução do projeto. O uso desse tipo de estratégia é adequado quando as condições de melhoria obtidas num determinado teste não vão mudar no próximo teste.  Esse tipo de estratégia envolve os seguintes passos:

  • Passo 1 – A experimentação da solução deve propiciar o máximo o grau de aprendizagem possível;
  • Passo 2 – O processo de experimentação deve ser feito mesmo que envolva um certo grau de improvisação. A ideia não é obter resultados perfeitos. A ideia é obter insights que possam fazer com que a solução ideal seja enxergada;
  • Passo 3 – Analisar os resultados para fazer as melhorias necessárias;
  • Passo 4 – Melhorar os processos executivos com base nas lições aprendidas e usar a experiência obtida para desenhar o próximo experimento de forma mais efetiva; e
  • Passo 5 – Retornar ao passo 1 e refazer este ciclo quantas vezes for necessário até que se alcance a solução ideal.

Vamos a um exemplo prático para ilustrar o conceito dessa estratégia. Suponha que seu projeto envolva a fabricação e montagem de diversas comportas de controle do fluxo de água em um vertedouro numa usina hidrelétrica. Existem vários fatores que podem interagir entre si e criar uma situação de avanço muito abaixo daquilo que estava planejado. Esses fatores podem envolver, por exemplo, riscos nas seguintes áreas:

  • No projeto de engenharia das comportas feito pela empresa projetista e pela engenharia do proprietário.
  • Nos fornecedores de matéria prima para as comportas.
  • Nos componentes fabricados por subfornecedores.
  • Na fabricação das comportas.
  • Na interação entre a fiscalização do proprietário e a equipe do fabricante.
  • No transporte das peças até o canteiro de obras
  • Na pré-montagem na oficina do canteiro
  • Na logística interna de transporte de peças do canteiro de obras até o vertedouro da usina.
  • Na montagem das peças das comportas no vertedouro da usina
  • Na interação entre a equipe da empreiteira de montagem e a fiscalização.
  • Na interação entre equipes de montagem mecânica das comportas com outras equipes que disputam espaço no local de montagem.
  • Na operação e manutenção dos equipamentos envolvidos.

Embora seja possível prever os riscos e as respostas para esses riscos em cada um dos aspectos citados, é bem mais difícil prever os riscos que podem ocorrer por conta da interação simultânea entre os diversos fatores e atores envolvidos. Nesse caso a experimentação por tentativa e erro, com lições aprendidas reaplicadas às atividades pode minimizar ou evitar problemas, é uma estratégia interessante. Se, por exemplo, na montagem da primeira comporta entregue ocorrerem problemas de soldas com falhas, é possível fazer experimentos com outros processos de solda até que seja possível resolver o problema nas peças que ainda não foram montadas. Esse processo de experimentação por tentativa e erro leva a uma diminuição paulatina das incertezas na execução das demais comportas a serem fabricadas e montadas. O principal problema dessa estratégia envolve o trade-off entre:

  1. Fazer experimentação e correr o risco de o projeto não progredir conforme desejado por conta do tempo perdido em tentativas e erros ou;
  2. Não fazer experimentações e o projeto não progredir por conta de riscos que vão surgindo sem que possa ter uma resposta para esses riscos.

Selecionismo Darwiniano

O selecionismo darwiniano é usado em situações complexas nas quais a melhoria num aspecto piora outro aspecto que também é importante para o projeto. Vamos a um exemplo: quando a indústria farmacêutica desenvolve o projeto de uma nova molécula para uso em um novo medicamento, a interação entre diversos fatores pode fazer com que os resultados sejam imprevisíveis. Uma certa molécula pode criar condições de cura de um tumor num determinado órgão do corpo e, ao mesmo tempo, criar danos em vários outros órgãos. Nesse caso o problema envolve múltiplas dimensões que tornam difícil saber qual é a melhor solução. Num problema desse tipo, a solução média, ou seja, aquela que cria menos danos pode não ser satisfatória. O medicamento na formulação X, que é o menos causa danos no organismo, pode não resolver o problema fundamental que é curar a doença. Na literatura cientifica em inglês, esse tipo de problema é chamado de wicked problem (Problema perverso).  Nesse caso o selecionismo é a alternativa disponível para buscar minimizar a incerteza de ocorrência dos riscos do projeto. O processo de seleção darwiniana funciona da seguinte forma:

  1. Definir as restrições e os critérios de aceitação da solução. Essas restrições e critérios devem ser continuamente revistos ao longo do desenvolvimento dos trabalhos.
  2. Desenvolver experimentações em paralelo para que se possa encontrar uma intersecção aceitável no conjunto de possíveis soluções. A ideia aqui é buscar soluções que possam ser aplicadas de forma sucessiva em diferentes conjuntos de combinações de restrições. Observe que esse processo, da mesma forma como no processo anterior de tentativa e erro, também envolve experimentações. Mas, no método de seleção darwiniana, as diversas experimentações são feitas em paralelo por equipes que buscam a melhor solução possível entre diversos fatores que competem entre si. No exemplo da hidrelétrica, colocado anteriormente, a melhoria num processo de solda na fábrica, por exemplo, não vai afetar o desempenho no transporte e da montagem das peças em campo ou vice-versa. Mas no caso do desenvolvimento de um medicamento, a melhoria da eficácia no combate à doença pode criar outra doença em outra parte do corpo.
  3. c) Confirmar que uma determinada solução é factível antes de se comprometer com a escolha dessa solução.
  4. d) Eliminar as soluções que não contribuíram para o avanço do projeto. O nome de selecionismo darwiniano vem exatamente do fato de que as soluções que não se mostram promissoras são simplesmente descartadas. A única coisa que não é descartada são as lições aprendidas que podem ser úteis para melhorar a chance de encontrar a solução ideal nos outros experimentos. Mesmo que um experimento falhe, ele pode trazer lições aprendidas preciosas.

Obviamente o maior problema nesse tipo de estratégia envolve a resposta as seguintes perguntas essenciais:

  • Quantas tentativas de experimentação em paralelo devem ser feitas?
  • Quando se deve parar com as experimentações?
  • A solução encontrada é efetiva, ou seja, ela resolve o problema sem criar outros problemas impossíveis de serem resolvidos?

Infelizmente não há uma receita certa aqui. O máximo que se pode dizer é que quanto mais complexo é um problema, maior deve ser o número de tentativas. Mas é evidente que o número de tentativas é limitado à capacidade da organização executora do projeto em fazê-las por conta das limitações de recursos e de tempo.

Conclusão

O presente artigo definiu que existem riscos que são desconhecidos e cuja existência pode ser impossível de ser identificada. São os chamados Unknown Unknown (ou problemas perversos) que a literatura cientifica de gerenciamento de projetos coloca. Foi explicado que esse tipo de risco ocorre ou por fatores influenciadores impossíveis de serem identificados e que geram riscos ou por fatores influenciadores conhecidos que interagem fortemente entre si e criam uma dinâmica própria cujo resultado é impossível de prever. Por fim, o artigo trouxe duas possíveis estratégias de como lidar com esses riscos.

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